Carta para Amélie

Oi filha,


espero que vc esteja bem onde estiver. Espero que esteja consciente e olhando por nós e pelo seu irmão. Hoje faz um ano que nos conhecemos.


Faz um ano que te peguei no colo e que dançamos juntos, porque eu te prometi que a gente ia dançar juntos, lembra? Cumpri minha promessa e eu e sua mãe te demos todo amor que existia em nós. Sua mãe me mostrou um jeito lindo de te receber. Foi me ensinando pouco a pouco desde que nos conhecemos e quando soubemos de vc, não tivemos nenhuma dúvida. A gente iria te receber do jeito mais amoroso e respeitoso possível e tivemos ajuda pra isso. Suas tias Isa e Letícia estavam lá pra cuidar de vocês, a Ana pra te receber, e eu e sua tia Aline pra cuidar da mamãe e te ver chegar.


Eu demorei muito pra conseguir escrever pra você. Até tinha um rascunho que escrevi ano passado, mas não tive força pra continuar ou postar isso e mostrar minha versão da história. Sabe, filha... foi muito difícil pra mim digerir tudo isso. Como a gente sente algo que não sabe sentir? Como eu lido com um vazio e um sentimento que eu não conheço? Como eu choro essa dor se não sei chorar? Tem muita coisa envolvida nisso, filha. Não existe como comparar os lutos de um pai e de uma mãe, porque isso não é, e nem deve ser, comparável. São lutos completamente diferentes porque fomos criados de formas essencialmente diferentes.


Poderia falar aqui sobre masculinidade tóxica, sobre como foi difícil tirar força de onde não existia, porque eu tinha que cuidar da sua mãe, não é? As pessoas perguntavam como ela estava, me diziam que eu teria que ser forte, que ela precisava de mim. Mas como vc cuida de alguém se não consegue nem se encontrar? Me vi perdido em mim, tudo tinha ruído, tudo o que eu sabia, tudo o que eu achava de mim e da vida, morreu um pouco com você. Foi muito difícil me levantar. E eu só consegui graças a sua mãe, que é uma mulher incrível e conseguiu me enxergar quando nem eu consegui. Graças ao apoio das nossas famílias e amigos. Graças ao Xande, nosso psicológo tão querido, que com uma sensibilidade que não é desse mundo, nos ajudou a entender e a lutar no caminho do luto.





Hoje você faria 1 aninho, e eu estou aqui com um nó na garganta escrevendo e sonhando que de alguma forma essas palavras te encontrem. Escrevo também pra tentar tirar um pouco essa dor do meu peito e quem sabe isso encontre outras pessoas que passaram por isso. A vocês, companheiros de luta e de luto, eu não digo que vai passar, mas que a dor vai diminuir, que o sofrimento impossível dos primeiros dias vai se atenuar. Que o luto sofre uma metamorfose com o passar do tempo, e que a dor vira saudade. Que a raiva da lugar para um outro entendimento e que você nunca mais será a mesma pessoa. Te digo que, infelizmente, as pessoas vão esquecer mais rápido do que você acha, mas você nunca vai deixar de lembrar. Peça ajuda e tenha o acompanhamento profissional, isso é essencial.


Améliezinha, eu queria que você tivesse aberto os olhos aquele dia, queria ter ouvido seu choro e te sentido quentinha. Eu sou seu pai e sempre serei, mas queria ter tido a oportunidade de te conhecer melhor, de me frustrar com minhas expectativas sobre você, de te ver andar, de te ninar, de ouvir você me chamar de pai. Queria ter colocado as músicas que eu gosto pra você, ter cozinhado pra você e descobrir o que vc ama. Mas essa não foi nossa missão. Ela foi muito mais breve e intensa.


Talvez você precisasse sentir o nosso amor, e a gente sentir o seu. Eu não tenho raiva de Deus e nunca entendi quem falava o absurdo de "mas Deus quis assim". Deus não é essa maldade ou vingança personificada, não foi Deus que tirou minha filha de mim, talvez ele tenha nos dado a oportunidade de encerrar um ciclo difícil de acontecimentos sofridos em diversas existências, mas os protagonistas dessas histórias entrelaçadas fomos nós e mais ninguém. Essa é minha verdade.


Acredito que no decorrer dos milênios, temos diversas encarnações, erramos e acertamos ininterruptamente através dos tempos. Os grandes erros requerem que a gente se curve diante da magnitude do universo e que nos reconheçamos, para então aceitar missões de vida que de alguma forma reparem o mal que fizemos. Como a gente nao vê a totalidade e o desdobramento desses acontecimentos, fica só a parte da dor, da raiva, da inconformidade com o que acabou de acontecer. Acredito do fundo da alma que essa missão era só nossa,e que por mais surreal que tenha sido viver isso, sei que conversamos e concordamos que seria o melhor pra gente. Que talvez nos livrasse de carmas antigos...


Fico feliz em saber que nosso amor te ajudou. Porque você fez nascer em mim algo que eu nunca havia sentido, você me fez pai e vai ser sempre nossa primeira filha. Seus irmãos vão saber de você, vão saber o quão amada você foi e ainda é. Obrigado por essa jornada que de alguma forma nos fez crescer. Eu te amo, Amélie. Nossa dança foi a mais linda que pudemos fazer dela e eu nunca vou esquecer disso.


Até breve, seu pai.

@tharcus_inthishit


Publicado com autorização do autor.

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