Eu também perdi meu filho - Entrevista com a Psi. Ms. Érica Quintans

Imagine sentir-se só, invisível, com uma sensação de sufocamento constante e ser obrigado a conviver com talvez a dor da pior perda que alguém pode experimentar. É assim que uma mãe se sente ao perder um filho no momento em que você espera e se planeja para recebê-lo no mundo. Agora considere que vivemos em uma sociedade extremamente machista. E depois de pensar na mulher, considere estas consequências para o homem.


Foi isso que a Psicóloga Érica Quintas, do Rio de Janeiro, pesquisou em sua dissertação de mestrado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) com o incrível nome de "Eu também perdi meu filho" no ano de 2018. Ela voltou seu olhar para uma pessoa que não está nada acostumada a ser acolhida e olhada na perda gestacional e neonatal: o pai. Um luto invisível dentro de outro, o luto paterno na perda gestacional e neonatal é considerado um luto não reconhecido. Ao perder o pai geralmente é empurrado pela sociedade em geral para uma figura de apoio da mãe. "Você deve estar forte por ela", "Não se entregue, ela vai precisar de você" e outras frases como estas são uma demonstração de como uma sociedade em que os papéis de gênero definem lugares tanto para mulheres como para homens e como em uma situação limite como uma perda isto pode acarretar em uma invisibilização que muitas vezes leva a complicações maiores como depressão, pânico, ideações suicidas... Érica estudou como e porque este processo ocorre e deu luz a uma dimensão deste tipo de perda que até então, ao menos no Brasil, ninguém tinha dado, ao menos com a profundidade e seriedade que ela deu em seu trabalho. Ela ouviu pais que perderam seus/suas filhos/as e o que aconteceu foi um trabalho lindo, onde homens puderam finalmente falar e serem ouvidos.


Leia a seguir a entrevista completa. E se quiser, baixe a dissertação dela com o link no final do texto.


Érica Quintans estudou o luto paterno na perda gestacional e neonatal.

Fale um pouco sobre você.

Eu sou psicóloga, fiz meu mestrado sobre luto dos homens na perda gestacional e neonatal. Trabalho enlutados, em especial, crianças. Gosto de estar com as pessoas, acompanhar seu crescimento e vê-las conquistar seus desejos.


De onde surgiu a ideia de estudar este tema?

Trabalhei com políticas públicas de câncer infantil por 3 anos. Quando pedi demissão para seguir um caminho de propósito profissional, entrei no mestrado e sabia que queria estudar sobre luto. Fui me aproximando das possibilidades de temas e, entre eles, havia a perda gestacional e neonatal. Comecei a fazer o trabalho voluntário no Coletivo Do Luto a Luta: apoio a perda gestacional e neonatal.

Em uma das reuniões com a fundadora, falávamos sobre como as pessoas lidaram com a perda, e como tratavam o marido dela: “a fulana está bem?”, “você precisa ser forte pra ela”, mas ninguém perguntava como ele estava se sentindo.

Isso me fez querer abrir um espaço para estes homens falarem, podendo dar visibilidade a sua dor e ajudar a quebrar este tabu.


Na sua dissertação você investiga o porquê do luto paterno na perda gestacional e neonatal ser tão invisibilizado. Em primeiro, o que é um luto invisível? E em segundo, a que você atribui está invisibilidade do luto do pai nesta perda?

O luto invisível, ou luto não reconhecido, é aquele onde o enlutado não encontra espaço social para expressar seu pesar, é como se a sociedade dissesse por quem, quando e como se pode enlutar. O luto na perda gestacional/neonatal é um destes, pois em geral os familiares e amigos não conseguem sustentar o pesar e permitir que o enlutado expresse seu luto.

De maneira geral, os homens (em qualquer tipo de perda) têm dificuldades de expressar seu pesar, pois socialmente são imputados a não expressar sentimentos. Assim, eu vejo o luto dos homens na perda gestacional/neonatal como um luto não reconhecido dentro do outro.

Acredito que seja invisível, primeiramente, porque em nossa sociedade a morte é um assunto tabu, independente de quem ou como ocorreu a perda. Em segundo lugar, a morte de uma criança/bebê parece uma inversão da ordem natural das coisas, o que torna o assunto mais delicado. Em terceiro lugar, em nossa cultura, os homens tendem a não expressar suas emoções de maneira geral. Juntando tudo isso temos um prato cheio para evitar o assunto e não cuidar dele, o que pode ser um complicador do processo.


Em determinada parte do seu texto você questiona as bases sociais do machismo como um grande fator para a invisibilidade masculina neste luto. De que forma você acha que as discussões atuais sobre feminismo e sobre as masculinidades podem contribuir para uma nova forma de enxergar o luto paterno?

Acredito que com todas as mudanças que estamos vivendo, empoderando as mulheres e respeitando seus direitos e expressões, também estamos caminhando para olhar os homens com mais sensibilidade. Para mim, esse processo e essas discussões irão trazer muitos benefícios, pois estamos caminhando para uma maior aceitação das pessoas como elas são.


Talvez a parte mais importante e mais impactante da sua pesquisa seja os depoimentos que você recolheu de pais que passaram pela perda gestacional e neonatal. Como foi pra você recolher estes depoimentos e porque eles foram importantes pro desenvolvimento da pesquisa? E o que estes depoimentos demonstraram sobre o sofrimento e as dores do homem neste luto?

Esta era a parte mais esperada por mim ao iniciar o meu trabalho. Para além de ler os livros e conhecer as teorias, eu queria ouvir de fato quem estava vivenciando o processo, pois este lugar de falar é o mais rico e potente, para mim.

Acredito que articular a teoria com a prática traz uma noção mais real da que estamos estudando, por isso penso que os depoimentos ilustram e dão corpo a tudo àquilo que a teoria tenta abraçar.

Os depoimentos mostram, de cara, que os homens sentem sim a perda de um filho(a), não fazendo distinção se é gestacional ou neonatal. Os sentimentos são diversos, destacando o medo e a tristeza como os que mais apareceram nas entrevistas.

Ao mesmo tempo, os relatos também trazem a gratidão, o orgulho e os recursos descobertos após terem os filhos(as) em suas vidas. E isso para mim é fundamental, pois o luto não é só dor, ele também é amor, força, gratidão e descoberta.


Houve algum momento da sua pesquisa em que alguma dificuldade se impos? Qual seria?

A dificuldade que tive foi conseguir restringir a pesquisa aos homens que perdem filhos apenas no período gestacional. Como foram poucos os que se voluntariaram, ampliamos o escopo para perda neonatal também.


Você demonstra no seu texto a necessidade de enxergar o luto do pai. Qual o impacto social de uma pesquisa como está? E qual foi o impacto que ter estudado o luto do homem causou em você como pesquisadora, como psicóloga e como pessoa?

Acredito que enxergar esse processo permite fazer com que os homens possam ser mais autênticos e verdadeiros em suas emoções. Para mim, a autenticidade, nas relações, é uma coisa fundamental. Somente na autenticidade é que nos conectamos verdadeiramente com o outro. Assim, acredito que os homens que podem ser eles mesmos, podem viver as relações de maneira mais verdadeira também.

Estudar esse tema foi, inicialmente, uma grande honra para mim. Me senti muito privilegiada de falar, muitas vezes pela primeira vez, sobre estes assuntos com os homens. Eles puderam se expressar e mostrar sua vulnerabilidade sem medo. Isso foi muito gratificante para mim. Tenho certeza que contribuiu para uma edificação pessoal minha e isso me deixa muito feliz! Como psicóloga e pesquisadora, me preparou mais para conhecer o íntimo do humano, podendo acessar emoções e cuidar delas de maneira mais consciente e segura.


Você pode baixar a dissertação de Érica Quintans aqui neste link.

Entre em contato com ela através do e-mail ericatq.psi@gmail.com.

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© 2018-2020 por Daniel Carvalho. Um projeto da Elisabeth Kübler-Ross Foundation Brasil.

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