Mesmo depois da morte

Atualizado: 1 de Set de 2018

Durante minha vida me deparei com uma infinidade de livros bons. Livros que eu devorava as vezes em um dia. Ficava sem me alimentar, esquecia de beber água, até chegar às últimas páginas de leitura. Mas houveram obras que me tocaram profundamente. Obras que marcaram de alguma forma a construção de mim mesmo. Obras que de tão intensas que foram, acabaram por virar referenciais de vida. São aqueles livros, aquelas palavras, aquelas cenas tão bem construídas que reverberam até os momentos mais inusitados.


Hoje eu sou outro. Após a perda da Joana eu me vi obrigado a me reconstruir e lidar com um caminho escuro, desconhecido, incógnito de mim mesmo. Sou eu na Refazenda de Gil.

Neste refazer-me, o abandono é algo natural. Deixar de ser para ser. Há muito que vai ficando pra trás, mas há também o que nos re-aparece a frente numa profusão de cores novas e brilhantes. Junto comigo, estes livros se refizeram, porque eu me refiz. Lidos, são meus, minhas re-autorias.


Percebi o quanto estes livros falam e conversam com o meu luto. São diálogos que impus quando os revisitei numa leitura de cabeça, numa rememoração da experiência que eles me trouxeram ao lê-los. Enfim, falo de 4 livros que adquiriram um sentido completamente novo após a perda. Livros que não foram escritos para quem perdeu, para o enlutado, mas que falam diretamente no sofrimento e na dor como um caminho de resiliência e de esperança. Livros que falam de amor, um amor que pra quem não conhece a profundidade do luto de uma perda de um filho ou uma filha, talvez tenha que fazer um esforço grande pra enxergar em suas linhas. Mas que foi como um estalo pra mim.


Vidas Secas de Graciliano Ramos relata a trajetória de uma família de miseráveis retirantes, migrando da seca em busca de melhores condições de vida. Emudecidos pelo autor em quase todo o livro, não falam. Sofrem com a fome com a fome em seus ombros e a morte em suas costas. Andam pelo sertão na aridez de suas vidas nem tão secas assim.


Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias é o nome impactante do livro-reportagem de Philip Gourevitch, que viajou para Ruanda na década de 1990 para investigar o genocídio ruandês. As raízes coloniais das potências europeias são expostas como principais propulsores do horror que viveu o país.


Anne Frank, aos 13 anos de idade

O diário de Anne Frank é o relato real de uma adolescente escondida dos nazistas durante a ocupação alemã na Holanda da Segunda Guerra Mundial. É um livro vivo, pulsante e extremamente impactante. A jovem Anne se desnuda falando de si em seu íntimo e, sem nem imaginar, desvelando a humanidade que todos nós carregamos, muitas vezes sem nos darmos conta.


Três livros que li quando era bem mais novo. Três livros que não conversavam entre si, a não ser pelo fato de que por algum motivo até então desconhecido, tinham me marcado profundamente. Até que me deparei com a leitura de Em busca de sentido de Viktor Frankl. Psiquiatra austríaco, judeu, foi perseguido, capturado pelos nazistas e enviado para Auschwitz. Teve um filho abortado forçadamente pela SS. Sobreviveu aos horrores de um campo de concentração e se descobriu sozinho no mundo: todos que amava morreram. Escreveu sua experiência neste livro absolutamente lindo. Fala de uma maneira direta e de coisas que não se imaginam numa experiência terrível: do riso, da liberdade interior, da inveja, da luta diária pela sobrevivência ao lado da solidariedade. Mas acima de tudo o livro de Frankl fala sobre o amor. Há um determinado momento de seu relato que ele fala de como descobriu a liberdade dali, mesmo continuando preso. Ao lembrar de sua esposa, e de transfigurar em si o imenso amor que sentia por ela, se libertava de todo o sofrimento que passava. Diz ele que não mesmo não conseguindo saber se ela estava viva ou não (e de fato não estava) isto não era importante: era o amor que ele sentia por ela, este imortal, que o fazia ser livre. "O amor é tão forte quanto a morte" diz ele, se apropriando de uma frase do livro bíblico de Cânticos.


É o amor que mantém a vida, mesmo depois da morte. É o amor que que sustenta qualquer relação possível entre duas pessoas, mesmo depois da morte. É o amor que transfigura o sofrimento e a dor, que redesenha a pessoa numa nova maneira de ser, que diminui a distância. Mesmo depois da morte.


Viktor Frankl

Foi Frankl que me chamou a atenção para o fato de que todos os livros que citei anteriormente tem no amor sua base fundamental. Vidas ressecadas pela miséria, mas que se mantém juntas na resiliência da busca de um futuro melhor. Sentimento de peso amortecido pelo amor paterno e materno, mesmo que recrudescido pela aridez desértica da inabilidade emocional. O inconformismo do olhar racista que se recusa a olhar, que vira os olhos ao horror, mas que também descobre a esperança (mesmo que vã) de que o outro é um. É o risco de si pelo outro, porque a vida de qualquer um tem o mesmo valor. É a menina que, escondida do mundo não esconde o mundo de si; que vivendo o perigo da morte vai pra janela olhar o futuro e descobre que a vida é maior do que imaginamos. Tão grande, imensurável.

É o homem que na perda de tudo o que tem descobre o ganho do sentimento de amar. Que vê nesse sentimento a ressignificação da vida e do seu sofrimento.


Todos se reconstruíram, todos se refizeram, todos se ressignificaram.

Essa é uma lição que a Joana me ensinou. Porque depois da perda que eu pude ler e reler essas obras desta forma. Foi ela que me mostrou o amor incondicional de ser pai de uma filha que não está aqui comigo. Ela que me ensinou a amar dentro de uma distância intransponível. Ela que me fez ver o amor onde eu achava que não era possível. Mesmo depois da morte.

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