Uma dor invisível

Atualizado: 12 de Dez de 2018

Quando se fala de luto na perda gestacional e neonatal a reação hegemônica, a que todo mundo tem o ímpeto de fazer, sem nem pensar, é a de olhar pra mãe. Ela perdeu um bebê. Se ainda na barriga, ou após um parto complicado, a atenção é para aquela que cuidou de uma vida em seu ventre por meses. Duas vidas em um só corpo. A fusão é natural na cabeça das pessoas. É uma dor sem tamanho, sem nome (como bem diz nossa parceira Marcia Noleto). A dor de uma mãe que perde seu/sua filho/a é mesmo inominável. Mas essa é uma dor com dois lados.



O pai fica esquecido. No seu canto, não é visto, nem como pai, nem como alguém que perdeu. Para si, absorve a cobrança de estar do lado de quem perdeu, a mulher; de se prostrar a seu ombro e a seu serviço. Pega pra si o dever de ser o repositório de forças para a companheira. “Eu preciso estar do lado dela”, “eu preciso dar forças”, “eu preciso cuidar da minha esposa”. É ela quem está triste, perdida, desesperada. É ela quem teve a maternidade roubada por uma rasteira do destino.


A ele sobra o dever de ser a força perdida, a sustentação do cuidado. Resta as tarefas, das mais cotidianas às mais perturbadoras. A ele cabe a responsabilidade de se tornar duro, como um muro, que cerca a mulher e a protege das intempéries de uma sociedade que não sabe em nada lidar com uma situação tão perturbadora. É ele quem enxuga as lágrimas. É ele quem ouve as piores coisas pra que ela não ouça. É ele quem trabalha pra que ela possa se recuperar. É ele quem tem que resolver as burocracias, tem que lidar com enterro e cartório, que recebe os parabéns quando vai fazer a certidão de nascimento porque sem ela não se pode ter a de óbito. É ele quem reconhece um corpo pequeno e gelado, é ele quem conversa com a equipe médica, é ele quem filtra. Um muro dado às intempéries de um luto não reconhecido recebe de tudo: tempestades, pedras, ventanias, corrosões. Um muro pode apodrecer e cair se ninguém cuida dele. Eu sei, porque aconteceu comigo.


Como enxergar a dor de quem, pra sociedade, não perdeu? Se não há o que perder, não há perda. É assim que o pai se isola em sua dor. Porque a dor está lá. Mas o que acontece, na grande maioria das vezes, é que nem mesmo o próprio pai a consegue ver. Ninguém vê. A família está toda para a mãe. A ele só cabe a pergunta: “E aí, como ela está”? É, ainda hoje, uma pergunta que ouço corriqueiramente, e que machuca muito. Porque para uma sociedade que não vê a perda do homem não importa muito como ele está. A não ser que seja pela mãe.


Durante a gravidez numa pequena discussão com minha esposa me confidenciei com uma amiga. A resposta foi a de que o centro de tudo era ela; e de que eu devia me calar e só abrir a boca depois do parto. Some isto com várias outras situações durante a gestação que acabam introjetando no homem a ideia de que ele ainda não é pai e que só será após a vinda do bebê e fica fácil de entender o quão solitário é pro homem ter que lidar com o próprio luto após a perda. Porque ele será pai só depois, mas esse depois não chegou.


É uma dor invisível. Ninguém o vê. Ninguém enxerga a sua dor. Pense num cara que de repente, quando acha que terá o momento mais feliz de sua vida, é obrigado a lidar com o pior. Se vê na responsabilidade de cuidar sem ser cuidado, nem por si mesmo. Não é visto e nem vê, e sofre repreensão quando sua dor transborda (“Você deve estar forte por ela”, “Deixa disso, vamos beber”, “Para com isso, daqui a pouco vocês engravidam de novo”). Na crueldade do tempo que passa (e passa, e passa…) só encontra sua dor quando já há uma cobrança pela superação. A mulher já se levanta, a família já cobra a andança, os amigos já estão certos de que tudo passou. E ele ali com sua dor. Sozinho. “Homem não chora” é o que ele ouviu por toda a vida, num machismo que o fez ser Homem com H maiúsculo. Acontece que dor é uma palavra feminina...


É preciso dar visibilidade à dor paterna. O homem perde o que não chegou a ter. Ele perde uma promessa, um desejo, um futuro. Ele perde. Tanto quanto a mulher, porque não é uma competição de sofrimentos. É o luto, próprio de cada um, expresso de uma forma única porque toda pessoa também é única. Ser mãe nunca será a mesma coisa que ser pai, e vice-versa. Há que se ter, de toda a sociedade, de toda a rede de apoio, de todos e todas ao redor deste casal, a compreensão de que por mais “durango kid” que seja o homem ele está em sofrimento também. Mesmo que ele mesmo não o enxergue. Os dois sofrem, de formas singulares. Cada ser é um ser. É preciso abraçar a dor do homem. Dar a ela a visibilidade que ela merece. Acolher este pai interrompido. É preciso dizer a ele que ele é e sempre será pai. É preciso fazê-lo entender que sua dor tem um lugar pra se expressar, que ele pode senti-la, que ele pode ser amparado. Que seu luto é visto e reconhecido. Que sua paternidade, mesmo com a distância imposta, existe e é válida. “Eu te vejo, pai”. Porque a paternidade não tem fim. Nem a morte é capaz de dar fim a ela. Como diz o livro de Cânticos: “O amor é tão forte quanto a morte”. E hoje, com a minha dor e minha paternidade, eu digo: “Talvez até mais”.


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Daniel Carvalho é pai da Joana

Criador do projeto "SOMOS - Apoio ao luto" (@somosapoioaoluto) Voluntário no projeto "Do Luto à Luta" Twitter e Instagram: @dacarpe1


Leia aqui a entrevista com a Psicóloga Érica Quintans sobre o luto paterno, tema de sua pesquisa de mestrado.

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© 2018-2020 por Daniel Carvalho. Um projeto da Elisabeth Kübler-Ross Foundation Brasil.

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