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Uma dor sem nome

Falar de luto materno é falar de uma dor que não tem medida. Segundo relatos de mulheres que passaram por esse infortúnio, quando uma mãe perde um filho, ela morre junto com ele.  É uma dor tão profunda que, ao longo da história da humanidade, não se conseguiu dar um nome para esse padecimento. Não existe nos dicionários uma palavra que o defina. Citam a palavra “órfão” (ã) para designar filhos que perderam seus pais e a palavra “viúvo” (a) para quem perde seu cônjuge. Mas não há uma denominação específica para uma mãe que perde filho. Esta dor é inominável.





Além de muito penosa exige um grande esforço de adaptação às novas condições de vida. Tanto as mulheres quanto todos os membros da família sofrem o impacto em seu funcionamento. Embora não possa ser medida, diríamos que esta seria a mais intensa entre todas as dores.


É um baque tão profundo que muitas mulheres passam toda a sua existência tentando se refazer.  Algumas não se recuperam jamais. É uma espécie de tsunami cerebral que perpassa a linha tênue da loucura. Todos os testemunhos são unânimes: é uma dor “para sempre”.


Segundo relatos de mães enlutadas é uma experiência que “esvazia o sentido da vida” e que é preciso “reaprender a viver". Muitos movimentos têm que ser feitos para que essa mãe possa se reconstruir. 


Esse rompimento da lógica e da infalibilidade da vida, que fazia essa pessoa acreditar que estava sendo amparada por certezas absolutas, de uma hora para outra, lança essa mãe, agora enlutada, em um lugar subjetivo onde não há mais controle e não há mais certezas.


Tudo aquilo em que ela acreditava, tudo aquilo que dava base a sua existência perde totalmente o sentido. Ela é obrigada, pelas circunstâncias, a lutar pela a sua própria sobrevivência psíquica. E, aos poucos, começa a repensar todos os seus conceitos. Uma mudança radical se faz necessária para que ela possa suportar a nova realidade. Começa, lentamente, um movimento de ressignificação para sobreviver à essa situação traumática .


Esse processo de “despedida” de uma lógica que embasava a vida anterior é relatado com frequência e traz um isolamento muito significativo para as pessoas que o vivenciam. Muitas mães dizem que os valores que passaram a permear as suas vidas atuais se tornam muito diferentes dos valores das pessoas que a cercam e que não passaram pela mesma experiência.  


Desta forma, algumas evitam frequentar determinadas amizades porque percebem que não pensam mais como pensavam antes. Enquanto suas reflexões estão mergulhadas em pensamentos filosóficos que buscam a razão da sua existência e do irreversível fim da vida humana, elas têm a impressão que o mundo ao seu redor continua o mesmo (e continua) sempre girando em torno de coisas que não fazem o menor sentido (para elas).  


Seguindo essa reflexão, os relacionamentos tornam-se insossos e desinteressantes e a tendência passa a ser o isolamento intelectual e físico. A busca pela leitura é relatada como um artifício utilizado por muitas mães para se distanciar socialmente e para aliviar os seus dias. 


Outro ponto importante a ser dito, no âmbito do luto, é sobre a qualidade do vínculo estabelecido com a pessoa que partiu. Segundo Parkes, “a força de um vínculo e a intensidade e duração do luto resultante quando tal vínculo é interrompido é proporcional ao valor genético da pessoa perdida”. 


Pressupõem-se que os filhos serão os responsáveis pela continuação da existência de uma família. E não se pode esquecer que há também a expectativa da chegada dos netos. Esta é uma das explicações dadas para o forte impacto causado quando há morte de jovens. Perde-se o filho, perde-se também a ordem sucessiva. Há uma inversão da ordem natural das coisas desafiando as expectativas.


A tudo o que foi relatado acima, pode-se adicionar sentimentos como a raiva, a incompreensão, a não aceitação do fato em si, a falta de fé, o desânimo e outros mais. Para os que convivem com esta mãe, fica a impressão que ela se tornou uma pessoa mais densa, mais crítica e, consequentemente, mais difícil de se relacionar. 


A fim de se fazerem ouvir muitas passam a contar a sua história em forma de livros. Há uma vasta literatura narrativa sobre o tema do luto materno, contudo vale a pena frisar, que na sua maioria, essa literatura é escrita principalmente por mães que, no auge de seu desespero, quiseram, de forma terapêutica, fazer diários que relatassem o trabalho interno que fizeram para assimilar o que estavam sentindo. E, sobretudo, para deixar seus depoimentos registrados para outras mães que viessem passar pela mesma experiência.  

Sendo assim, uma extensa produção de livros é publicada criando uma aliança entre mães que se apoiam mesmo sem terem tido a oportunidade de se conhecer. O livro Paula, de Isabel Allende, é um bom exemplo.


Um outro fenômeno interessante se instaura: as mães que perderam filhos se adotam entre si. Há um forte vínculo entre elas. Uma solidariedade que ultrapassa o fato de haver ou não uma amizade duradoura. Elas trocam facilmente segredos e intimidades sem nunca terem se visto antes. A necessidade de falar é maior que tudo.


Elas costumam participar de páginas de rede sociais falando abertamente de suas dores e trocando experiências. São vozes expressivas em grupos de ajuda, fundam organizações de cunho social, organizam cartilhas com temas exclusivos e engajam-se em movimentos em prol de causas específicas.


Junto com a crescente violência das cidades grandes, surgem grupos, por exemplo, de mães de policiais que se unem para melhorar as atuais condições da classe. E outros, tais como: de estudos sobre o luto, de mães vinculadas a movimentos religiosos de todos os tipos, de mães de chacinas, de desaparecidos, de suicidas, de acidentes de trânsito, grupos terapêuticos de mães enlutadas e outros mais.  Esse movimento multiplicou-se rapidamente de forma significativa e pode-se afirmar que são grupos que conseguiram uma verdadeira representatividade junto a líderes políticos.


O movimento de participação em grupos de apoio é, com certeza, de suma importância no trabalho de luto. A partir desses encontros as mães passam a falar abertamente sobre  o tema, se vêem umas nas outras e,   sobretudo abrem-se para a possibilidade de ressignificação da existência.

Márcia Noleto é Psicóloga Clínica.

Formação em Fenomenologia Existencial (IFEN).

Voluntária no Projeto "Do Luto à Luta".

Instagram: m.noleto.psicologa


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